Ana Berganton
TEXTOS

ENSAIO PARA VIVER
Quem me colocou aqui?
Caixas de jeitos de ser.
Uma só, para viver do meu jeito.
Ou muitas. Fora da caixa.
Tantas facetas eu tenho.
Me emolduro daquilo que vejo.
Emoldurada de pensamentos.
Sou alguém para outro alguém.
Sou ninguém também.
Sou definida por tudo e por nada.
E sou infinito, indefinido.
Sou tanto do mesmo. Quadrado.
Sou como você me encaixa.
De uma idéia do que sou.
Papel em branco tem lado.
Linhas retas ou tortas, me levam.
Caminho concreto no incerto.
Carrego um nome apropriado.
Me acumulo de uma mente.
De um corpo, só meu.
Me mostro assim. Bem assim.
Eu me escondo.
E me transformo em ser e ter.
Para ser e ter.
Sou transparente.
E cheia de nuances, também.
Sou seu espelho.
E quem escolhe quem sou, é você.
Existo, dentro e fora.
UM GESTO
É colher de pau que refoga, é pano de prato que limpa uma borda. É o misturar da tinta na água, é o absorver a poça. Pincel que dança.
Corpo que estica. Gestos circulam. Envolta.
Uma volta e outras linhas.
Meu redondo é tão inacabável como outros. Cheio de beiras e de estribeiras, imensidão de infinitos que começam ou acabam. Aparecem repletos ou vazios. Como uma receita que ainda não foi escrita.
O pintar é lento, sedimenta. E também tempera e cozinha. Sobre uma mesa posta, se acumulam corpos. Prontos para o banquete. Respirar memórias.
Vou deslizando pincéis para borbulhar por dentro. Como panela fervente. Abasteço meus poros de cor. Um toque extra, mais sabor. Comida pronta é de cada jeito. Como paisagem de cada olhar.
Um estalo de algo inevitável, sem garantia em cada mordida.
Assim vejo os trabalhos de Ana Berganton:
As cores desbotadas pelo sol nos dos bares “pé na areia” onde tomamos uma cervejinha gelada.
O azul imenso do céu que se mistura ao mar nas praias brasileiras.
As nuvens que pairam livres no ar levadas pelo vento.
O colorido dos legumes e frutas que borbulham na panela que, em breve estará no centro da mesa convidando a todos para um delicioso farnel.
O sabor de algo que comemos. Um delicioso feijão, um ovo frito, um chocolate, uma massa. Dizem que o paladar é o último dos sentidos a ser esquecido....
Os lustres e tapetes feitos de palha.
As cores das flores.
Coisas simples da vida que esquecemos no corrido dia a dia citadino.
Ana nos encanta com seu trabalho porque queremos que a vida seja assim, bela. E o belo pode ser encontrado em quase tudo que nos cerca nesta vida tão difícil e encantadora ao mesmo tempo.
Rejane Cintrão
Julho 2023
TEXTO REJANE CINTRÃO
2023
Naturalmente, sou desgovernada por um tempo definido por mim como escasso ou, quem sabe, por pensamentos frenéticos, muitas vezes estranhos ao meu corpo.
São marcas que se acumulam em camadas e camadas, na esperança de serem resolvidas em sequências ordenadas no mapa mental. Pelo desejo de acessar e “rebutar” essa dinâmica do tal desassossego interno nada aconchegante e, vou deixando o imaginário vagar, como se prendesse a uma linha tênue e contínua de raciocínio. Me pego procurando em cada pincelada de tinta, uma forma de conectar e ressignificar cada situação que foge do meu controle com instante-desenho. Nos meus gestos repetitivos e insistentes, vou sobrepondo formas geométricas misturadas com formas orgânicas, feitas de manchas de aquarela, como uma ressonância que fatia, para encontrar no detalhe, um entendimento do todo.
Parece um poema. Entretanto, esses são alguns dos títulos dos trabalhos da artista Ana Berganton. Frases que têm significados profundos em toda relação humana, e que são amplificadas quando vemos as aquarelas desta artista com formas simples repetidas inúmeras vezes em variedade de cores e tonalidades diferentes. Bolas e quadrados pintados, recortados, sobrepostos, pintados novamente, colados em telas, papeis, entretelas, que são novamente recortadas e coladas, num fazer sem fim.
Mira Schendel produzia suas monotipias à exaustão (mais de 4 mil só na década de 60). Sua inspiração era seu cotidiano: as frutas, as frases ditas ou pensadas, os objetos da casa, os movimentos sutis da mão, do braço, dos traços simples de um círculo ou de uma reta, “um desenho gostoso”, como ela intitulou um de seus trabalhos. Simplicidade, vamos esclarecer, não significa pouca complexidade. Ao contrário...
Com uma energia similar à de Mira, Ana Berganton produz incansavelmente aquarelas, pinturas, desenhos, colagens, fotografias, poemas. Nascida em São Paulo, onde vive e trabalha, a artista cresceu entre mudanças de cidades e uma vida livre na praia em Manguinhos, no Espírito Santo, aliadas às suas memórias de infância vivida com suas avós no dia a dia da cozinha. Todas essas experiências de vida entre a praia, a grande São Paulo e a colorida e saborosa comida brasileira mesclada à cozinha europeia, são o ponto de partida para seu trabalho artístico. Impossível separar o artista de sua vida. Arte e vida estão sempre interligadas.
Ana utiliza a água como elemento tanto em suas pinturas - quer seja por meio da aquarela quanto da acrílica- quanto na preparação dos alimentos. Alquimias semelhantes que mesclam e transformam cores. Tons vermelhos, amarelos, ocres, azuis e verdes que surgem por meio de pinceladas ou de misturas nas panelas.
Embora as formas se baseiem naquelas da pintura construtiva, não são formas exatas. Assim como as cores que surgem a cada mistura dos pigmentos com a água, em tons variados e sobrepostos, não são as cores primárias usadas por artistas do construtivismo (que concentravam suas pesquisas nas formas e cores puras, em busca da síntese). Elas aparecem durante o fazer artístico de Ana, de maneira natural e expansiva, sem um projeto anterior ou uma receita. Os títulos surgem depois que o trabalho foi feito, como se registrassem um sentimento do momento em palavras.
A fotografia também se encontra presente em sua produção na qual documenta, por meio de imagens, pensamentos que refletem questões sobre sua vida e infância. A memória dos pés que caminham rapidamente pelas areias quentes da praia em busca da água fresca do mar é registrada sobre diferentes solos desde os caminhos de terra entre árvores, mangues e arbustos até os pisos de cerâmica tão populares nas casas praianas.
TEXTO DEBORA BOLZSONI
2025
A manufatura intuitiva do processo é algo caríssimo para Berganton, sua inquietude e rapidez em realizar suas peças é um modo de deixar acontecer, controlar até um ponto e a partir de então aguardar para ver sua própria obra como um fenômeno autônomo. Acompanhar seu modo de trabalhar é se dar conta de que sua aparente dispersão é na verdade um método para não se sobrepor aos meios que utiliza. Podemos perceber em todas as materialidades com que seu trabalho se desenvolve, a mesma delicada leveza, o mesmo contato cuidadoso que muito claramente se apresentam nas aquarelas. Não é um mero acaso que a artista se utilize de linhas de seda em seus bololôs, redemoinhos, marés, é importante o encantamento pela matéria. Assim como é importante a duração, o tempo que sabemos envolvido no processo de produção da seda. Normalmente os casulos do bicho da seda são colhidos antes que a mariposa adulta os rompa para sair, pois isso quebraria o fio contínuo. Esta sabedoria de conter o processo antes que ele se conclua para que assim possa seguir fluindo continuamente é o que guia e preserva o frescor do trabalho de Berganton.
O poeta e filósofo Paul Valery cunhou uma boa expressão para pontuar o que Ana Berganton parece afirmar a todo momento: o mais profundo é a pele. Pele é extensão, seu crescimento é lateral, o mais fino e mais extenso dos nossos órgãos. O órgão que toma toda a nossa superfície, que é como diz a canção, a superfície da alma. Também o modo como Berganton dá a ver suas imagens é por extensão, distende os fios, expande suas manchas. E, ainda que tais manchas levem em conta a corporeidade de seus suportes - porque sim, contam com a massa do acúmulo de linhas, do papel, da espuma, do tecido (os mais recorrentes), elas preenchem a o campo lateralmente. Suas cores, além de poderem ser nomeadas (verdes, azuis, lilases, laranjas) existem como encadeamentos de expansões. É isso que a artista vivencia e que salta à nossa frente, neste convite de A E R E A... vemos esse universo de manchas luminosas e linhas espirais que querem
se propagar, se espalhar, expandir, crescer. E nunca se cumprir por inteiro, porque recomeça.